São Raimundo, bairro de Manaus

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A ocupação da área onde hoje está localizado o bairro do São Raimundo teve início em 1849, quando o governo do estado doou ao Seminário São José o terreno que foi incorporado ao patrimônio da instituição religiosa. Na época, o bispo Dom Lourenço da Costa Aguiar resolve lotear uma parte das terras para pessoas de baixa renda, que construíram AS primeiras casas nos terrenos, pagos com quantia mensal denominada de "foros da igreja", cuja administração e cobrança, em nome da diocese, estava a cargo de Belmiro Bernardo da Costa. Os primeiros moradores sanaram AS dívidas com a diocese em cerca de trinta anos. Segundo o livro de tombo da paróquia de São Raimundo, uma das primeiras famílias a se estabelecer na área do bairro foi a de Bernardino de Sena e Cândida Maria Anunciação, ambos do Ceará, que vieram para Manaus a procura de trabalho e, posteriormente, trouxeram também seus filhos Elizardo, José, Antônio, Joaquim, Martino, Tereza, Luis e Joana.

A princípio construíram suas casas à beira do rio Negro. Naquela época já existia a família de João Caboclo, o pescador Manuel Salgado, o embarcadiço José Olímpio e o ajudante Lucas. Distante de suas casas, eles construíram um depósito de lenha para abastecer os navios que atracavam NO porto próximo a rua da Boa Vista. Essas famílias também praticavam a caça e a pesca para o próprio sustento e a venda nos mercados e feiras de Manaus. Ainda conforme registro do livro da paróquia, em 1877 chega para morar NO bairro o senhor Bernardino, juntamente com sua filha de nome Luzia, que permaneceu solteira e se dedicava às causas sociais das pessoas carentes, falecendo em 1938, aos 98 anos.

Aos poucos foi crescendo o número de casas e habitantes. Bernardino, católico fervoroso começou a solicitar a presença de sacerdotes para a celebração do santo sacrifício do altar. Nas datas festivas, Luzia se encarregava dos preparativos do grande evento e o LOCAL se tornava um grande arraial iluminado pelos lampiões de gás. Os religiosos participavam do evento pedindo donativos emprestados de outras localidades para armarem o altar num barracão onde guardavam ferramentas para derrubada das matas. Foi nesta ocasião que, a pedido de Bernardino, apareceu na comunidade o recém ordenado padre Raimundo Amâncio de Miranda, filho do município de Maués, trazendo consigo a imagem de São Raimundo Nonato, medindo cerca de 40 centímetros. Imagem que Luzia colocava sempre NO centro do altar nos dias de festas e celebrações.

Quando o padre Raimundo Amâncio deixou a comunidade, esta ficou sob a responsabilidade de Raimundo Limão, com a missão de dar prosseguimento às reverências ao santo. A presença da imagem estava tão forte e impregnada na pequena comunidade que logo o cemitério também foi batizado com o nome do santo. Aproveitando o ensejo, o bairro logo em seguida recebia também a mesma denominação, ou seja, São Raimundo.

Urbanização

Padre Amâncio continuou ainda em Manaus e fundou também a Irmandade do Santíssimo Sacramento em 1890, sendo em seguida ordenado monsenhor da igreja católica e faleceu em 27 de novembro de 1901. Em 1933, o novo pároco da comunidade, padre Carlos recuperou a imagem e colocou permanente nas reuniões festivas do curato. Na virado do século XX, o bairro entra em processo de urbanização, com abertura de novas ruas, onde novas casas foram sendo construídas por moradores, em sua maioria, vindos do interior ou de outros estados brasileiros.

Nesta época, segundo consta NO livro tombo da paróquia, os terrenos tinham o aval da diocese e, afastado do Centro da cidade, eram próprios para pessoas menos "civilizadas". Até 1919, continua os registros da paróquia, "o lugar era mal afamado devido os constantes conflitos, povo inculto e sem profissão fixa. Os homens eram tidos como os valentões do lugar, sempre com revólveres na cintura e facas à mostra". Os mais temidos eram Chico Preto, Manuel Francisco e Lezarrão que enfrentavam os vigilantes da polícia constantemente.

Matadouro municipal antecipa mudanças e atrai moradores

As mudanças NO bairro começam a acontecer mais rapidamente a partir de 1912, quando é construído o matadouro municipal, em terras onde hoje está localizado o bairro da Glória. A chegada do matadouro, também conhecido por Curre, serviu para atrair mais pessoas para o bairro, agora capaz de oferecer emprego aos seus moradores. O LOCAL sofreu uma expansão demográfica tão acelerada que imediatamente surgiu um novo bairro, o do Matadouro, depois Glória.

Fim das desordens

Ainda de acordo com documentos em posse da paróquia, por volta de 1920, reinava NO bairro a pobreza e a miséria. AS mulheres lavavam "buchos" para ajudar NO sustento da casa e revendiam pela cidade, ganhando por isso o apelido de "bucheiras", que até hoje é relacionado aos moradores do bairro. Nesta época, o governo decidiu acabar com AS desordens NO bairro e estabeleceu uma intendência de polícia e os valentões foram desaparecendo. Foi grande o esforço do clero e das religiosas com a finalidade de elevar o nível moral e intelectual da comunidade.

Anos depois, AS moças e os rapazes já mostravam determinadas mudanças NO comportamento. Era comum se ver passar os pescadores NO final de tarde e o maior entretenimento eram AS festas de bailes organizadas nos pequenos clubes. Por ocasião do Carnaval todos caiam na folia deixando o bairro em clima de alegria e festa. Na quarta-feira, todos compareciam à igreja para tomar às cinzas como sinal de penitência.

Já o escritor Áureo Nonato, em "Os Bucheiros", conta que por volta de 1930, os moradores utilizavam AS várzeas do igarapé do São Raimundo, durante a época da vazante do rio, para plantar melancia, maxixe e mandioca e também cavavam cacimbas, de onde se abasteciam de água potável. Por volta de 1937, foi criado um bloco de carnaval "Os Magnatas do Amor", que desfilava pelas ruas do bairro e também do Centro, arrastando grande número de simpatizantes.

Abrigo para refugiados

Durante a década de 1950, o bairro sofre sua segunda onda de expansão populacional, com a chegada dos interioranos fugidos da grande enchente de 1953. Mais moradores vão buscar abrigo NO bairro quando se espalhou a notícia de que os padres estavam prestando assistência aos desabrigados. Anos mais tarde, já NO final da década de 1960, muitos dos moradores da Cidade Flutuante, que se estendia do Rodway até a foz do igarapé do São Raimundo, se instalaram NO bairro quando foram obrigados a deixar suas casas montadas em balsas. Novamente a paróquia distribuiu terras aos desabrigados, aumentando assim ainda mais a população do bairro.

Sessões de matinês

NO bairro usufruiu por muito tempo os serviços do Cine Ideal, onde os moradores do São Raimundo assistiam sessões de matinês e também a shows de artistas famosos da "Era do Rádio". O cine estava localizado na rua 5 de Setembro e encerrou suas atividades NO final da década de 1970. Em 1982, o São Raimundo é finalmente ligado a Aparecida pela ponte Senador Fábio Lucena, construída para diminuir a distância da Zona Oeste até o Centro da cidade. Com a construção da ponte, o meio de transporte tradicional do bairro, AS catraias, deixa de existir por falta de passageiros, que cruzavam agora a pé o igarapé do São Raimundo.

Porto da balsa

NO São Raimundo possui pouca atividade comercial, com os estabelecimentos se reduzindo a pequenas tabernas e mercadinhos. A maior parte dessa atividade está concentrada nas proximidades do porto da balsa que liga o bairro ao município do Iranduba. Nos finais de semana e feriados, AS ruas ficam congestionadas pelo grande fluxo de carro que buscam esta saída de Manaus. NO bairro também está localizado o estádio da Colina, único campo particular da cidade e também uma quadra poliesportiva, NO ponto final da linha 101.

É atendido na área de educação pelas escolas estaduais Marquês de Santa Cruz, rua Virgílio Ramos; Pedro Silvestre, rua Rio Branco; São Luiz Gonzaga, rua 5 de Setembro; escolas particulares: centros educacionais Mônica, na rua 5 de Setembro; Lamarão, na avenida Presidente Dutra; e Amazônia, também na rua 5 de Setembro.

NO bairro está ligado com o centro da cidade a menos de 15 minutos pela ponte até o bairro de Aparecida.

Extensão de perímetro

NO bairro de São Raimundo ocupa uma superfície de 115.32 hectares. Tem como início de seu perímetro urbano o igarapé homônimo com o Rio Negro, seguindo à margem esquerda até o ponto final da rua São José até a avenida Presidente Dutra, passando pela 5 de Setembro. Com a chegada cada vez de interioranos a procura de terras e oportunidades de emprego, o perímetro urbano do bairro São Raimundo foi ampliado surgindo NO período da década de 60 a comunidade da Glória com seu ponto inicial na avenida Presidente Dutra

Peculiaridade

Um detalhe curioso deste período contado NO registro, foi que certa ocasião apareceu na comunidade certo político fazendo campanha à sua candidatura e prometeu água à população. Após ganhar AS eleições, não cumpriu sua palavra. Por ocasião de uma grande festejo na comunidade quis o político voltar e recebeu o seguinte aviso: "As mulheres de São Raimundo esperam-no a vassouras". O recado foi tão incisivo que nunca mais apareceu na comunidade o referido político.

Fonte: Jornal do Commércio

Portal Amazônia - NR



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